Apresentação (maravilhosa) de João Costa do meu novo romance, A Aldeia das Almas Desaparecidas

Apresentação de A Aldeia das Almas Desaparecidas

João Costa

 

Quero começar por agradecer ao Richard Zimler o convite para este desafio de apresentação do seu novo livro, cumprimentando também a Porto Editora, nas pessoas do Vasco David, da Sofia Fraga e do Engenheiro Vasco Teixeira, por me permitirem associar-me a este fim de tarde tão bom.

Este lançamento, nesta semana em que celebramos o centenário de José Saramago, é particularmente feliz. Porque A Aldeia das Almas Desaparecidas é, tal como as temáticas de Saramago, um convite a sairmos do conforto de uma história conhecida para mergulharmos na realidade das histórias que a história não conta.

Estruturo esta apresentação em torno de cinco palavras: visibilidade, avesso, ódio, segredo e encontro.

A Aldeia das Almas Desaparecidas podia ser apenas a narrativa do Isaaque Zarco, na sua relação com a Avó Flor, na sua condição de filho de uma relação desigual, na descoberta da sua identidade, na fuga da perseguição, no confronto com a manipulação e o ódio. Mas, como sempre nos livros do Richard Zimler, é muito mais. Este é o relato de uma história de Castelo Rodrigo que os livros de história não contam. É também um exemplo claro de que os problemas globais acontecem em muitos locais de que não se fala. É um exercício de humanização dos que desapareceram – dos que continuam a desaparecer – porque há quem, cheio de verdade, se afirme pela intolerância, pela segregação, pela perseguição e pela busca continuada de responsabilizar uns para se desresponsabilizar de acolher todos.

Vamos às cinco palavras.

A primeira palavra: Visibilidade

Toda a obra do Richard nos ajuda, através da ficção, a redesenhar a nossa identidade, porque nos revela capítulos escondidos da nossa história. O antissemitismo não foi uma linha no manual escolar de história. Foi uma política de intolerância, de tortura, de morte, que teve como alvo pessoas que cometeram o crime de acreditar.

Dar visibilidade a lugares concretos, como Castelo Rodrigo, a pessoas concretas, como Isaaque, Samuel, Lena, Martim, o Navalha ou o William, é a melhor forma de nos colocar a nós, leitores, no lugar dos outros, transformando o registo em empatia, a notícia em revolta partilhada, re-humanizando uma história que vivia escondida por trás de números e datas.

As almas desaparecidas deste livro não são apenas as vítimas do Santo Ofício em Castelo Rodrigo. São as invisibilidades que atravessam esta narrativa. Desaparecimentos de ontem que são tantas vezes escondidos hoje. O abandono familiar que não se partilha. A violência doméstica testemunhada que não se conta. A orientação sexual que se esconde. O abuso que se sofre sozinho. A deficiência que se enjeita. A religião que não se pratica abertamente. No século XVII e hoje.

As almas desaparecem porque há e sempre houve quem não as deixasse aparecer. Enterram-se verdades, porque há padrões, morais e moralistas que preferem o obscurantismo à visibilidade.

Este é um livro de visibilidades e de interpelações ao que ainda hoje não vemos ou não queremos ver.

 

Segunda palavra: Avesso

A minha avó (sempre as avós, tal como a Avó Flor) dizia-me, quando por engano vestia uma roupa do avesso, que eu ia ganhar um presente. A Floresta dos Avessos é este confronto com a parte de dentro, a que não é para mostrar, a que parece não fazer sentido. Viramo-nos do avesso quando nos esforçamos e viramo-nos do avesso quando o sentido desaparece.

A intolerância religiosa é o avesso da religião. Sendo quase sempre, se não mesmo sempre, imposta por um outro credo ou outra forma de se relacionar com o mesmo Deus, tenho para mim que os limites à liberdade religiosa são a expressão mais profunda da privação da liberdade. A liberdade de expressão dá-me a garantia de que posso expressar o que penso. A intolerância religiosa impõe-me não apenas que não posso falar, mas nem sequer acreditar. É o impedimento de uma expressão íntima.  A religião, enquanto fenómeno urbano, só existe em comunidade. Impedir a fé e a sua expressão é proibir a identidade e a pertença que a comunidade traz.

Acreditar que não se pode acreditar é o avesso do acreditar, simplesmente porque se acredita. A prática religiosa escondida é o avesso da profissão da fé.

O medo é o avesso da infância e da inocência. A história de Isaaque e dos seus irmãos é manchada pelo não dito, pela identidade difusa, pelo que tem de se esconder, pelo que não se pode revelar.

Mas há o avesso que traz sorte, o tal presente de que a minha avó falava. Ao longo do livro, testemunhamos a alegria dos momentos da revelação do que está escondido, do lado de dentro que não se pode ver ou mostrar.

 

Terceira palavra: Ódio

Em nome de Deus, odeiam-se crentes. Em nome da família, agride-se a mulher. Em nome do poder, abusa-se de crianças. Em nome da moral, oprime-se o homossexual. Quantos Santos Ofícios ainda estão por aí?

Quantos ódios particulares são alimentados pelos ódios públicos e institucionais?

Na Floresta dos Avessos, torna-se mais uma vez claro que odeia quem teme, que o ódio é a arma dos cobardes. E acrescento, dos ignorantes. O medo só existe quando estamos no escuro e ninguém nos acende a luz. “Quem tem medo é capaz de fazer coisas horríveis”, como aprende Isaaque.

Nesta narrativa impressiona, como em muitas outras obras do Richard, a propagação do ódio. A alteração súbita das reações, a permeabilidade do ser humano à influência dos discursos fáceis eternamente assentes no “nós contra eles”. Vão mudando os “nós”, alteram-se os “eles”, mas a permeabilidade continua. Ontem, pela influência da oratória da autoridade, hoje no chavão da rede social mais próxima ou do populista que grita (ou berra) mais alto.

A súbita transformação dos mais próximos em pessoas que passam a odiar interpela-nos e faz questionar a robustez da nossa própria firmeza. Como seria cada um de nós naquele contexto?

A rejeição pontua vários momentos deste livro. Sobretudo a rejeição inesperada, transformada em violência. Este livro desperta consciências para a vulnerabilidade que todos temos, até aqueles que não nos sentimos predispostos para rejeitar.

 

 

Quarta palavra: Segredo

Comer em segredo, rezar em segredo, amar em segredo, estudar em segredo, nomear em segredo. Este é um livro sobre vidas em segredo.

Não o segredo do que se escolhe não partilhar, mas o segredo imposto. Imposto porque a verdade traz sofrimento ou viabiliza a privação da liberdade e da vida. A cobardia da denúncia do segredo, os inquéritos insidiosos ou a culpabilização da inocência empurram para vidas fechadas sobre si, em que o que se vê impedido de revelar é tido como incauto ou traidor. O segredo torna-se instrumento de proteção da vida, pervertendo a sua função de tesouro que se quer guardar apenas porque sim.

O segredo defensivo torna-se arma defensiva, mas confunde-se com vergonha, medo e culpa, corroendo a identidade.

Crescer clandestino torna-se uma luta pela descoberta do que se é e para quem se é. Esta aldeia das almas desaparecidas é também o lugar de almas que se fecham e retrato dos que vivem, em 2022, fechados na incapacidade de se revelar.

O segredo imposto é o avesso da liberdade de ser.

Ao Isaaque é referida, numa passagem do livro, a sua isaaquidade, a descoberta de si no meio do que se esconde. Essa descoberta depende, ao longo do livro, da compreensão e da revelação.

 

Finalmente, a quinta palavra: Encontro

Estas almas desaparecidas reaparecem nos múltiplos encontros que este livro proporciona.

Há um filho e uma mãe que se encontram, reencontram e voltam a reencontrar, mesmo quando ela sabe que ele está ali, mesmo estando a sonhar.

Há um neto e uma avó, uma Flor, que se formam um ao outro, numa presença constante, mesmo quando a distância impede.

Há uma comunidade que se encontra na proteção do outro, que se reúne escondida e que torna a repressão mais livre.

Há um rapaz e um avô emprestado que se protegem e acolhem, que se descobrem a cada diálogo.

Há um rapaz e um Navalha, que transformam o silêncio, a incapacidade da palavra, em conversa e ensinamento.

Há um jovem que se descobre na aceitação da diferença, que se faz encontrar nas línguas que quer falar ou em que escolhe cantar.

Há os encontros depois das perdas, nos lutos que não se entendem, mas que se integram e transformam.

Estes encontros são a esperança luminosa desta obra. Somos porque nos encontramos com outros que são. A comunidade, a aceitação, a interajuda, a solidariedade e o acolhimento são a verdadeira solução para os limites impostos pela intolerância atávica.

Não gosto da palavra “tolerância”, porque nunca quererei dizer a alguém que o “tolero”. Gosto de aceitação, acolhimento e encontro. Esta é a mensagem desta obra.

Estar aqui hoje é um privilégio.

Leio o Richard Zimler desde os 24 anos, comprando sempre os seus livros assim que são publicados. Nenhum me desiludiu, todos me encantaram.

Isto significa que o Richard influenciou metade da minha vida. E influenciou mesmo. Por me abrir os olhos, tornando visível o que eu não via, por me revelar segredos, por me fazer questionar o avesso do meu avesso, por me dar dados históricos para lutar contra o ódio, por me convidar a encontros profundos com a beleza da sua escrita, com a intensidade das suas personagens e com a beleza crua.

Neste livro, o avesso está também no ofício do alfaiate. Um alfaiate que descobre que a roupa ganha vida própria nas suas mãos, porque a criatura pode ser mais do que o criador, porque a criatividade é este risco de perder o poder, porque criar é poder ser livre.

Mal posso esperar pela publicação da segunda parte desta obra.

Nenhuma forma de intolerância passará. Este é um romance atualíssimo. Não o arrumem nas prateleiras dos romances históricos, por favor, porque todas estas palavras aqui contidas são um convite explícito à ação na contemporaneidade.

Obrigado por este encontro que nos proporcionas.

 

Richard Zimler